- wh white cue
- cl contrato social
- im imanente [adição_multiplicação_divisão_subtração_]
- cr corte e retenção
- in incessante - incurável
- co cosecha
- mc mdc [múltiplo denominador comum]
- no no te olvides
- da detetor de ausências
- ca calçada
- bs básculas
- vz vazadores
- ac ação comum
- tn tudo entre nós
- vb visible
- vs visor
- cv casa verde
- bh bueiro (da série <i>huecos</i>)
- lp let's play
- cs contemplação suspensa
- lc las cosas son como son
- fp futuro do pretérito
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intervalo
utopia modernista, estado de suspensão, atravessamentos, corredor, livre trânsito, metrópole, parque, transparência, agente–articulador, caixilho de ferro, vidro, espaço de negociação, curadoria, diretoria, cadeado, condicionamento, instância dilatadora, câmera de segurança, monitor de vídeo, 2 cadeiras, transmissão em tempo real, agente de segurança, rádio comunicador, mesa, gravador VHS, corte, grade de aço carbono, agente–ativador
25ª Bienal de São Paulo
Pavilhão das Indústrias/ São Paulo
o registro da arquitetura é dimensão fundante para vazadores, uma vez que o desenho do Pavilhão das Indústrias [projetado por Oscar Niemeyer] reitera a utopia modernista da integração de espaços e enfatiza a idealizada relação interior-exterior. baseado nisto, o trabalho pretendeu a caracterização de dois atravessamentos: um tangível, construído no andar térreo diretamente sobre a principal fachada do edifício, e outro simbólico – planejado para o interior do espaço expositivo. o primeiro se materializou através de uma estrutura composta por ferro e vidro, idênticos aos utilizados na construção original, e sugeria, na mimese com a arquitetura, uma reflexão quanto aos limites da prática artística inserida no corpo da cidade. a estrutura se assemelhava a um corredor e trazia em cada extremidade uma folha móvel de vidro – sem fechadura, trancas, ou maçanetas. concebido para o livre trânsito de pessoas em meio a uma mostra paga, mas sem indicar qualquer sinalização de tal passagem, o trabalho convocou um real enfrentamento entre a Bienal e a cidade e suas representações. a segunda parte da ação [não produzida] previa um corte de 2,5 × 5 metros vazando a laje que separa o 2º andar do térreo, cuja abertura receberia uma grade alveolar de aço carbono.
enquanto o primeiro atravessamento vinculava-se às percepções do visitante, em uma experiência conectada às projeções e limitações do próprio corpo, o segundo propunha um pensamento ativo quanto aos processos de ocupação e configuração espacial. vazadores trouxe, na qualidade do experimento, a desierarquização da ideia de obra, site e lugar, e, ainda, a desarticulação dos códigos que estruturavam o local da ação.
vazadores
Rubens Mano, 2002
convidado a participar da 25ª Bienal de São Paulo, em 2002, concebi uma ação articulada em duas partes e prevista para acontecer nos dois pisos reservados ao núcleo Cidades [um dos módulos da mostra intitulada Iconografias Metropolitanas]. a proposta deu sequência a uma pesquisa focada na correspondência entre a constituição de espaços sociais e a maneira como enxergamos e ativamos o ambiente ao redor – interferindo ou contribuindo com a manutenção de suas dinâmicas e conteúdos. apesar de complementares, só pude realizar uma delas…
o trabalho considerou a formulação de dois ‘atravessamentos’ nas estruturas do Pavilhão das Indústrias, projetado por Oscar Niemeyer, no Parque do Ibirapuera. um tangível, construído no andar térreo diretamente sobre uma das fachadas de vidro, e outro simbólico – pensado para o segundo andar do espaço expositivo, mas materializado somente graças a uma maquete eletrônica. ambos faziam referência a um deslocamento proposto, provocado, aos usuários da mostra e do parque. enquanto o primeiro ‘atravessamento’, no térreo, facilitava uma experiência ligada ao movimento do próprio corpo, questionadora de nossa condição de agentes em determinado contexto, o segundo trazia como horizonte uma reflexão quanto aos condicionados processos de ocupação e construção espacial.
[a parte não produzida consistia em um corte de aproximadamente 2,5 × 5 metros, vazando a laje que separa o segundo andar do térreo, cuja abertura receberia uma grade alveolar de aço carbono – semelhante às usadas nos respiradouros das estações do metrô. projetando uma inserção silenciosa no interior dos fluxos da mostra, a ação relativizava oferta de previsíveis ‘roteiros’ e ’percursos’ e a necessidade de uma ‘ocupação vertical’, ao mesmo tempo que colocava em questão certos aspectos construtivos do espaço expositivo]
a dimensão da arquitetura moderna foi outra referência importante para o trabalho, uma vez que o desenho do Pavilhão reitera a utopia modernista de sugerir a integração com seu entorno – visível tanto na forma como está suspenso [sobre pilotis], quanto na adoção da fachada de vidro, enfatizando a relação interior–exterior.
pensada como uma ação que pudesse se ‘apropriar’ do local da mostra, a primeira parte do projeto resultou na construção de uma passagem interceptando uma das fachadas do edifício. a primeira intenção foi estabelecer a real conexão entre os dois ambientes [externo e interno], e facilitar a convergência das várias esferas constitutivas do lugar da ação. a escolha do local da instalação considerou o fato de ter sido esta a fachada principal prevista no projeto de Niemeyer, e também por ela estar em posição oposta à eleita pela Bienal como entrada oficial daquela edição da mostra.
composta em ferro e vidro, materiais idênticos aos utilizados na construção original, a estrutura sugeria, na mimese com a arquitetura, uma reflexão quanto aos limites de uma ação artística inserida no corpo da cidade. a passagem se assemelhava a um ‘corredor’ e cada uma das extremidades era finalizada com uma ‘folha móvel’ de vidro [sem fechaduras, trancas ou maçanetas]. ‘transparente’ e ao mesmo tempo silenciosa, a estrutura não trazia qualquer indício de ser um trabalho de arte, colocando à prova a presença de uma visualidade condicionada nos processos de apreensão e reflexão ligados à produção artística contemporânea. vazadores considerava assim, a pertinência de uma mudança de repertório pautada nas experiências formuladas e vividas no interior dos fluxos das grandes cidades.
franqueada, mas sem qualquer sinalização, a passagem apontava para o alargamento das reflexões propostas pela mostra, provocando um real enfrentamento entre a cidade e suas representações – uma correspondência possível de ser estabelecida entre o contexto interno formulado pela Bienal e a realidade exterior dessa construção modernista. ao mesmo tempo, vinculava à percepção e à reação do visitante uma experiência cuja realização dependia do movimento e da projeção de seu próprio corpo. pois, somente com uma aproximação curiosa – mesmo sem ter a menor ideia do significado de tal estrutura, as pessoas poderiam acionar uma das portas de vidro, ter acesso ao ‘corredor’, e, num segundo movimento – ao cruzar a outra porta –, alcançar o lado de dentro ou de fora do edifício.
vazadores não apresentava uma oferta explícita, conduzida, mas uma experiência relacionada à disponibilidade dos visitantes. desde o início tomei a decisão de não divulgar o trabalho… e essa também foi a orientação dada ao curador e aos monitores da mostra. alguém que não soubesse da Bienal, ou do que estava acontecendo no interior do Pavilhão, mas que percebesse o dispositivo colocado ali na fachada, poderia se projetar sobre ele e, eventualmente, atravessar sua estrutura. o trabalho se revelava uma passagem sem intermediação, uma experiência pretendida e ativada pelos próprios visitantes.
não haveria filtros para a realização de tal experiência. você tanto poderia sair do edifício, quanto, se estivesse fora, entrar e permanecer. resulta daí que cada indivíduo formularia, independentemente da real consciência, a própria dimensão do trabalho.
a ‘aprovação’ do projeto, naquele momento sob a responsabilidade da diretoria da Bienal, resvalava, contudo, em uma delicada condição, imposta pela instituição: manter um agente de segurança nas imediações do trabalho – para acompanhar a circulação de pessoas através do ‘corredor’. embora tivesse autoridade para uma eventual alteração de seu funcionamento, caso ocorresse alguma ‘anormalidade’, ficou bem claro, e decidido por todos, que esse funcionário da Fundação trabalharia somente no interior do Pavilhão, e, em hipótese alguma, sua atuação poderia inibir ou influenciar o livre atravessamento.
aceita tal condição, uma vez implícitas questões ligadas à segurança do prédio e de seus visitantes, foi minha a vez de fazer um movimento nesse jogo proposto à Bienal. levando-se em conta as implicações contidas na condição definida, e em resposta à posição adotada pela instituição, considerei importante explicitar um posicionamento, promovendo uma ação que monitorasse o regime desse controle. contratei uma pessoa para, a partir de um ‘posto’ montado no segundo andar do espaço expositivo [composto por uma mesa, duas cadeiras, monitor de vídeo e um gravador de VHS], acompanhar as imagens transmitidas por uma câmera de segurança [instalada por mim no teto do espaço, sobre o ‘corredor’]. mais do que um simples registro, tais imagens – a da pessoa ‘travestida’ de segurança e as captadas pelo monitor do sistema – pretendiam a amplificação de algumas das dimensões articuladas pelo trabalho.
vazadores trouxe a proposta de uma desierarquização da ideia de trabalho, site e lugar. ou a desconstrução e a desarticulação dos códigos espaciais que estruturavam o lugar da ação, por meio da desmaterialização da ideia de obra – simulacro da própria arquitetura e do próprio trabalho. desse modo, por operar a fusão entre ação pretendida e espaço ocupado, o projeto passou também a se alimentar das contínuas operações processadas no lugar, favorecendo o desdobramento da dimensão espaço-temporal, e a exposição de aspirações difusas e subliminares relacionadas ao lugar do trabalho.
com os cortes e as aberturas previstos na arquitetura, vazadores formulou uma espécie de desorientação para os usuários do Parque do Ibirapuera e da Bienal, propondo-lhes uma relação direta com um espaço-simulacro – graças à violação de suas próprias condições espaciais [a possibilidade de transpassar a estrutura do edifício]. porém, como já foi dito, o ato de vazar dependia da ‘disponibilização’ do usuário, inserido em um ‘corpo’ dentro do qual não era mais possível discernir, dissociar, o que era obra e o que era arquitetura.
desde sua concepção, o trabalho buscou uma posição crítica em relação a certos aspectos presentes no circuito das artes visuais. procurou também abordar implicações econômicas e sociopolíticas que permeiam as grandes mostras [incidindo sobre as expectativas e responsabilidades normalmente lançadas por uma instituição cultural] e questionar nosso papel de agentes no interior do corpo social.
se o espaço controlado do museu, ou da instituição, frequentemente representa um espaço de certezas, vazadores procurou instalar em seu interior uma pequena e silenciosa dose de instabilidade.