- wh white cue
- cl contrato social
- im imanente [adição_multiplicação_divisão_subtração_]
- cr corte e retenção
- in incessante - incurável
- co cosecha
- mc mdc [múltiplo denominador comum]
- no no te olvides
- da detetor de ausências
- ca calçada
- bs básculas
- vz vazadores
- ac ação comum
- tn tudo entre nós
- vb visible
- vs visor
- cv casa verde
- bh bueiro (da série <i>huecos</i>)
- lp let's play
- cs contemplação suspensa
- lc las cosas son como son
- fp futuro do pretérito
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intervalo
corpo-casa, escada, luz natural, piso bicolor de madeira, espaço vazio, tinta automotiva, porta de madeira, espelho plano, ilusão de ótica, madeira, objeto infinito, vão, espelho convexo, anel de borracha, fibra óptica, vinil adesivo jateado, deslocação, tinta refletiva, camera obscura, imagem invertida, ferro, aço inox, campo luminoso, instância condicionada, região central da cidade, agente–ativador
galeria Casa Triângulo/ São Paulo
havia anos a espacialidade e as características da primeira sede da Casa Triângulo motivavam projeções quanto a um hipotético trabalho a ser ali exposto. eu não possuía qualquer vínculo profissional com a galeria, mas exercitava a possibilidade de ações em espaço tão peculiar. o fato de este não estar configurado como um cubo branco e trazer reminiscências de seu uso anterior – uma residência com diferentes cômodos e ligações – acentuava a decisão de ocupá-lo. tempos depois, ao dar início à relação com a galeria, essas reflexões foram reativadas… e, através da exposição de um conjunto de instalações, criada uma correspondência tangível entre as especificidades do lugar e a natureza de certos trabalhos: uma justaposta analogia corpo-casa (dependências)/corpo-obra (as várias ações).
entendidas como básculas, e pintadas com tinta preta altamente brilhante, duas das antigas portas retiradas do espaço voltaram aos seus postos transformadas em ‘espelhos negros’; um pequeno furo feito na parede do fundo de uma das salas, ao lado da janela, recebeu um cabo de fibra óptica para captar e transmitir a luz solar para dentro do local; a abertura existente entre dois outros ambientes recebeu vidros espelhados em toda sua espessura; duas das paredes da sala de esquina, cobertas com tinta usada na demarcação de autopistas, converteram o lugar em uma camera obscura – reproduzindo por reflexão ininterruptas cenas transcorridas no Largo do Arouche [espaço externo à galeria].
Rubens Mano expõe a metamorfose da percepção
Laymert Garcia dos Santos, 2000
básculas, o novo projeto de Rubens Mano, é poderoso. Quem o visita pode experimentar o que Walter Benjamin denominou “metamorfose da percepção”.
O pensador usou a expressão nos anos 1930 para falar do impacto da fotografia e do cinema: aqui, porém, estão em jogo nossas relações com a arquitetura e a fotografia, vale dizer com o espaço e a imagem.
O projeto suscita uma experiência única, porque conduz o observador a perceber-se numa situação paradoxal, numa fissura ou espécie de intervalo criado na intersecção entre dois planos de realidade: o plano da materialidade do espaço e o plano imaterial da imagem.
Tal uma báscula, o espectador busca equilibrar-se entre um e outro, e é essa oscilação mesma que o faz perceber, por meio da imagem, o espaço abrindo-se infinitamente e, por meio deste, o poder da imagem.
Como se fosse papel da imagem levar o espaço a desdobrar-se, fazê-lo proliferar e imaterializar-se; como se fosse papel do espaço revelar a imagem, permitir a sua materialização.
Com rigor e sutileza, o artista apaga no observador a sensação muito contemporânea de esgotamento do espaço pelo acúmulo das imagens, substituindo-a pela impressão de que uma fecundidade originária regia, e sempre ainda pode reger, a relação entre os dois planos.
E então, a positividade dessa troca contagia o visitante, tanto mais que ele se vê inscrito nela material e imaterialmente, como corpo e figura.
Não dá para descrever ou imaginar o que se passa, é preciso estar lá e experimentar.
É que Mano não expõe objetos de arte no espaço de uma galeria: sua arte consiste em expor-nos à potência do espaço e da imagem que, por também se acharem expostos a nós, atraem-nos para a fissura do intervalo, desencadeando-se o movimento de transformação.
É compreensível que não haja objetos e representações: os elementos da câmera e os processos de geração da imagem fotográfica, que o espectador descobre percorrendo as salas, encontram-se ali como vetores.
A fotografia não se inscreve no espaço arquitetônico, mas vai maquiná-lo em sua dimensão constitutiva.
A dinâmica da produção de imagens passa a fazer parte da dinâmica do espaço construído, que agora deixa de ser dado para ser acionado; e, acima de tudo, acionado pela nossa presença. Assim, sua construção se faz, se desfaz, se refaz junto com a nossa.
Num certo sentido, talvez básculas seja um exemplo depurado de site-specific, já que o trabalho foi feito para um determinado lugar, e não só revela a especificidade deste como ainda o faz “trabalhar”.
Mas pensando bem, a exposição é muito mais do que isso. básculas não pode ser recriado em lugar algum; e no entanto o que ali se cria extrapola os limites físicos da galeria e rompe o enquadramento das efêmeras imagens que a povoam, despertando a convicção de que a fissura do intervalo pode habitar outros espaços, qualquer espaço.
Com detetor de ausências, instalado no Viaduto do Chá durante o Arte/Cidade II, Rubens Mano mostrou que sabia interferir com maestria na relação entre o cidadão da metrópole e seu espaço urbano.
Com básculas, feita a experiência, nossa relação com o espaço arquitetônico nunca mais será a mesma.