- wh white cue
- cl contrato social
- im imanente [adição_multiplicação_divisão_subtração_]
- cr corte e retenção
- in incessante - incurável
- co cosecha
- mc mdc [múltiplo denominador comum]
- no no te olvides
- da detetor de ausências
- ca calçada
- bs básculas
- vz vazadores
- ac ação comum
- tn tudo entre nós
- vb visible
- vs visor
- cv casa verde
- bh bueiro (da série <i>huecos</i>)
- lp let's play
- cs contemplação suspensa
- lc las cosas son como son
- fp futuro do pretérito
Skip to content
intervenção
dinâmicas de revogação, eixo de cruzamento, metrópole, potência, desenho, projetor Sperry [modelo 1941], brigada militar, caminhão, estrada, carta, espaço de negociação, lâmpada Hdmi, agente–desencadeador, guindaste, estrutura tubular metálica, estabilizador, cabo elétrico, fluxo, espelho parabólico, ativação luminosa, tela de proteção, sistema de trocas, duração, campo de penumbra, agente–ativador
dispositivo luminoso: Renato Cury
Projeto Arte Cidade
Vale do Anhangabaú/
São Paulo
os efeitos decorrentes dos processos de desqualificação do espaço urbano e suas implicações nas relações que vivemos em meio a tal ambiente apresentam-se como as principais referências inscritas neste trabalho realizado no Vale do Anhangabaú – região central de São Paulo, em meados dos anos 1990. frente à crescente ‘desterritorialização’ experimentada nas metrópoles – que desdobra o conceito de ‘lugar’ e anuncia a ocorrência de relações intersubjetivas que muitas vezes prescindem da cidade como suporte material –, um dispositivo luminoso foi instalado no eixo visível de um intenso cruzamento entre humanos e máquinas, para abordar uma das mais relevantes experiências relacionadas aos habitantes das grandes cidades: a constante oscilação vivida no interior de um intervalo balizado por noções de identidade e anonimato.
o projeto previu a instalação de dois grandes projetores militares [semelhantes aos utilizados durante a 2ª Grande Guerra] sobre duas torres de 13 metros de altura, montadas em ambos os lados do Viaduto do Chá. posicionados de frente para o mesmo, logo acima do nível da calçada, os projetores lançavam potentes feixes de luz paralelos e não coincidentes [com 12.000 watts e 1,5 metros de diâmetro], que atingiam perpendicularmente o fluxo de pedestres. ao cruzarem os feixes, as pessoas tinham metade de seu corpo intensamente iluminada, enquanto a outra metade se esvaía por entre os edifícios, em indefinida sombra – sem que esta pudesse ser evidenciada ou registrada por qualquer anteparo.
a intensidade da luz potencializa a velocidade vivida nas metrópoles. ela que nos permite ver e identificar, caracterizava com este trabalho uma espécie de ‘anulação’. pois, ao atravessar o cilindro luminoso e ter sua passagem anunciada, cada corpo apontava também para uma situação de apagamento… com o não registro de sua sombra a indicar a impossibilidade da confirmação de sua presença.
detetor de ausências: o desenraizamento como iluminação profana
Laymert Garcia dos Santos, 1995
A experiência básica do homem contemporâneo é o desenraizamento. Com frequência, o vemos apontado como responsável pelos sentimentos de desrealização, perda de identidade e solidão que tornam negativa a vivência do habitante das grandes cidades. Mas o desenraizamento também pode ser positivo, quando nos liberta de um certo “sentido da realidade” que a racionalidade dominante procura impor, quando nos emancipa.
Na megalópole, a arte é o veículo pelo qual o desenraizamento pode se operar positivamente. É o que Gianni Vattimo intitula “a arte da oscilação”. Exposto à obra, o observador sofre um golpe ou choque que, num certo sentido, é mortal – pois suscita uma intensa experiência de imersão no espaço-tempo, experiência-limite que se deflagra cortando o fio das ideias, deslocando o sujeito e exigindo dele uma atenção de outra ordem. Em suma: choque e golpe realizam um estado de oscilação-desenraizamento, essa desestabilização na qual se revela a precariedade da existência. Na megalópole, a arte da oscilação é, assim, exercício de mortalidade, o que não significa experiência imaginária, muito menos “pessoal”. Como se o exercício de mortalidade, na sua radicalidade, instaurasse uma espécie de estado de emergência que prenuncia um novo advento do ser. Como se o exercício fosse não o sublime, mas uma espécie de iluminação profana.
detetor de ausências, trabalho de Rubens Mano para o Arte/Cidade II, é a realização plena da arte da oscilação e do desenraizamento positivo.
Dois cilindros de luz foram instalados em ambos os lados do Viaduto do Chá, centro de São Paulo; cada cilindro se acha sobre uma torre de 13 metros de altura. Apontados para o viaduto, eles lançam fachos de luz paralelos e não coincidentes, de 1,5 metros de diâmetro, que atingem perpendicularmente o fluxo de pedestres. Trata-se, portanto, de um trabalho de pura iluminação, que impressiona pela sua aparente simplicidade e real economia de recursos. Recorrendo a dois velhos holofotes militares, Mano lida diretamente com a potência da luz, fazendo-a jorrar sobre o habitat e o habitante. O efeito de revelação é poderoso.
Vista do alto, é possível perceber como a intervenção interfere no espaço-tempo do lugar, deslocando-o. O lugar é o mesmo de sempre e no entanto outro, porque a contínua emissão dos fachos que cruzam o viaduto e vão se perder nos fundos do vale cria um campo que valoriza a duração, a passagem do tempo na cidade, e tudo o que nela se manifesta como transformação e acontecimento. Do alto, vê-se que o que dura na cidade é apenas a passagem do tempo…
No campo em que a duração se faz visível, nesse espaço aberto para o acontecimento, entra e sai tudo o que se move na cidade. Atingido pelo facho, o passante se ilumina por um momento, antes de voltar à escuridão; mas se ilumina de modo peculiar: metade luz, metade sombra, seu corpo perde o volume, esvaindo-se ao mesmo tempo na superexposição e na sombra que se alonga e se perde, como o próprio facho, no fundo da cidade. Aparecimento e desaparecimento são, assim, concomitantes e complementares. Mas tal acontecimento não termina aí: mal o passante reconquistou sua dimensão habitual e já está entrando no facho que o apanha no sentido contrário, fazendo agora de sua metade luz, sombra, e de sua metade sombra, luz. Aparecimento e desaparecimento são, portanto, completos, pois ocorrem simultânea e sucessivamente.
Talvez o alcance maior do trabalho de Mano se deva ao fato de ele privilegiar o campo iluminado da passagem, e não o aparecimento e desaparecimento das pessoas. Parece que o artista não precisa focalizá-las, porque os próprios seres entram e saem do foco e, ao fazê-lo, se realizam e desrealizam enquanto imagem, num processo aberto que afeta a todos, sem exclusão. E é magnífico ver a população urbana aparecendo e desaparecendo alternadamente enquanto gente e enquanto imagem. Como na sociedade, todos estão expostos à experiência, participam da revelação e se consumam enquanto presença.
Visto de fora, ou vivido de dentro, o detetor de ausências é um sensor captando o desenraizamento do habitante da cidade, registrando a sua perda de consistência e a sua transformação em pura imagem; mas, ao mesmo tempo, o detetor é um conversor, pois comuta o desenraizamento negativo em positivo, produzindo a experiência da mortalidade e, com ela, a iluminação profana. Porque a máquina artística de Mano detecta a ausência, abrindo-se para a presença.